domingo, 12 de janeiro de 2025

pensamentos sobre: o homem que copiava (2003)

(um trecho desse review está no meu letterboxd!)

cara mas que filme maluco da silva dos santos.

achei muito fascinante porque tem dez mil maneiras de interpretar e analisar ele, dez mil diferentes jeitos de apreciar, mas a história eh muito maluca e bem escrita acima de tudo. me emocionei com a narração da silvia no final, como ela tá finalmente liberta de um escroto e ainda achou amor, se vendo percebida e então percebendo o outro.

acho que preciso desligar a voz tuiteira moralista quando vejo ele tho, visto que me incomodei com a ótica de um cara negro ser stalker e não ter muita educação formal apesar de ser inteligente. fiquei acanhado com o que o filme queria transparecer com um personagem assim, mas considerando a quantidade de homens pretos que se veem no andré, não sei o quanto sentido faz eu, um andré Branco, ficar dando pitaco puritano sobre representação. afinal pessoas não são perfeitamente morais mesmo, e é completamente possível você se policiar tanto sobre como escrever alguém de uma identidade que você não compartilha, que você faz um personagem sem sabor, falhas, interesses ou traços alguns. suponho que fica aqui uma indagação minha para mim mesmo sobre o quanto meu medo e receio sobre representações absurdas e racistas afeta minha capacidade de ver a mágica em um personagem que nem o andré.

lembrei da contrapoints no seu perene vídeo sobre crepúsculo implorando para que as pessoas analisem arte de maneira psicológica em vez de moral. considerando que o que mais me incomodou no personagem foi ele ser um stalker, aplico uma visão mais psicológica nisso: existe um apelo grande em ser o que deseja e o que observa, em vez de ser o desejado e o observado. eu só não me vejo nesse papel tanto, especialmente não no nível de me apaixonar por alguém que eu vejo através de janelas. entre a dinâmica dos dois, me vejo muito mais na silvia botando um sutiã de rendinha para impressionar o andré e ver como ele reage.

inclusive no tópico de identidade os dois são muito coded como autistas. as coisas que o andré fala, as maneiras que o corpo dele se contorce esboçando reações e cumprimentos, as perdas de contextos sociais importantes, achei tudo isso muuuuuuuuito bem escrito e atuado. vejo traços parecidos na silvia, mesmo ela parecendo mais "normal", e daí minha mente já foi para como mulheres autistas tendem a camuflar mais intensamente por pressões de gênero etc etc... mas enfim, ambos me lembram muito de ter 13 anos e aprender a camuflar por perguntar incessantemente "como que eu continuo essa conversa?" para minha melhor amiga enquanto eu mandava prints de dm do instagram para ela. nesse sentido esse filme me lembrou muito de punch-drunk love, se for considerar só a historia de amor entre duas pessoas esquisitonas (cara faz tempo que vi esse filme e só lembro de levar isso do final dele.)

preciso dar aqui um mini foco também para a trilha sonora, que mistura música clássica com os breakbeats mais 2003 já feitos. #loveit

esse ano pretendo dar muito mais tempo da minha vida pro cinema nacional e acho que esse foi um ótimo primeiro filme nacional do ano para começar. sinto que consigo rever ele centenas de vezes e toda vez vou conseguir tirar mais dele, ou refletir sobre diferentes coisas, ou até experimentar para ver como o meu humor preexistente afeta como me sinto sobre o filme, porque esse aqui realmente tem de tudo. momentos de riso, de ação,
de tensão, de referência a masturbação, de romance, de medo, de cringe humor com a edição esticando as situações sociais mais desconfortáveis já colocadas em filme... 

ENFIM um grandíssimo prisma refratário da condição humana. vi um review que falou sobre como todos os personagens estavam dispostos a fazer coisas horrendas para alcançar seus objetivos, e como isso reflete o sonho brasileiro de fazer parte da elite, mas acho que cada um dos personagens tem motivações tão diferentes que não consigo compartilhar essa perspectiva tanto. se tem uma pessoa que desde o começo estava lá pelo dinheiro e luxo, era a marinês DIVA prontíssima para virar jardim de cabelo se pudesse descolar mais grana assim. how can you not say cunt.

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