quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

diário de um ex-depressivo #1 - eu estou vivendo intensamente

olá a todo mundo que está lendo isso agora. me chamo andré e faço 20 anos em alguns dias. depois de dois anos e meio, novamente encaro o mundo sem apoio algum de remédios psiquiátricos.

histórico

com 17 anos, em 2022, eu estava encarando uma vida muito difícil psicologicamente. tinha me formado cedo demais, e me joguei em são paulo sem qualquer tipo de plano ou ambição forte, mas só tentando muito seguir o conselho dos meus pais e da minha terapeuta de explorar mais coisas e novos lugares. eu morei em goiás desde os 9 anos, apesar de ser paulista e de toda minha família ser paulistana. crescendo lá eu sabia que queria algo mais, mas não sabia exatamente o que. também não estava pronto para de fato viver depois do ensino médio. minha vida foi planejada até o meu terceirão e depois dele terminar eu fui pego despreparado pela passagem do tempo e pela ameaça da vida real.

vir morar com meus avós em são paulo foi legal e importante, mas meu frágil estado mental continuava o mesmo. eu constantemente afogava em emoções de maneira debilitante. a única coisa que me foi prescrita alguma hora foi o remédio #1 - hemifumarato de quetiapina 50mg. o psiquiatra do caps infantojuvenil de anápolis acreditava que eu só precisava dormir melhor, e apesar de eu saber que isso não ia me ajudar tanto, até hoje não consigo explicar o quão saboroso foram as noites de sono que tive com esse remédio. não curou minha insônia crônica, mas eu dormia quando queria agora. uma vez quase apaguei dentro do chuveiro quando tomei banho depois de tomar o remédio

eventualmente, o remédio acabou, eu me mudei para são paulo, e continuei mal. seguindo conselho dos meus pais, procurei renovar a receita com o pediatra do postinho. ele notou minha situação e mudou minha vida prescrevendo o remédio #2 - cloridrato de sertralina 50mg. algo incrível para mim, visto que era realmente um antidepressivo e que eu retirava de graça na farmácia do posto. não lembro o nome do doutro, somente que ele era bonito e que eu não sabia processar o carinho e cuidado genuíno que ele tinha com pacientes de outra maneira além de uma tenra atração homoerótica. 

lembro de uma semana antes dessa consulta, assistir fleabag com meu querido amigo paulo e não saber lidar com o final da temporada. não lembro o que me dificultou, se foi o final da 1a ou da 2a, mas eu tive um ataque de ansiedade que me levou a 3 horas de choro intenso, hiperventilação e um sentimento de que a minha vida ia para um caminho errado. 3 semanas depois, visitando meus pais em goiás e já sob o efeito da sertralina, senti pela primeira vez uma felicidade pacífica e calma. eu não estava afogando mais!

o desmame

o processo de desmame foi exatamente o que eu já estava acostumado com esses anos de acompanhamento. burocracia e doutores que não parecem te escutar ou se importar ou, pior, acham que te conhecem melhor que você mesmo. meu psiquiatra do posto insiste que não sou autista e que eu iria piorar sem o antidepressivo. ele se preocupou mais em reafirmar que respeita o trabalho da neuropsicóloga que me avaliou para autismo do que respeitar o próprio paciente que estava se abrindo na frente dele. ele tinha 3 livros relacionados à bíblia e cristianismo na mesa dele, virados para mim.

fugi da consulta pegando fogo de raiva, por ter tido que brigar com ele para ter a receita com dosagem reduzida de desmame. alguns dias depois, fui para uma consulta gratuita dentro de uma universidade, e fui tratado muito bem. próxima consulta: peguei a receita com dosagem reduzida e uma receita reserva caso o desmame não fosse bem. e saí de lá com conselhos e apoio.

tomei a dosagem reduzida por um pouco mais que 30 dias, e quando o medicamento acabou, eu parei. e... nada aconteceu. não senti a tontura característica de quando passava 2 dias sem remédio por burocracia de receita ou dinheiro. não me senti suicida, o que foi uma ótima notícia. os dias continuavam normais.

vivendo intensamente

ontem eu dormi às 5am depois de passar 3 horas chorando constantemente. e não foram choros ruins! primeiro chorei ouvindo kaleidoscope da chappell roan dentro de um video de reação do youtube. o querido jaxson pontuou quão lindo a imagem pintada da música é e como ela é de longe a mais bem escrita do álbum, e isso me afetou profundamente. não ajuda que me vejo muito na música por descrever bem a situação do meu último término

depois disso, assisti um querido vídeo-ensaio sobre ainda estou aqui e a razão da vitória da fernanda torres ser tão importante para nós brasileiros. chorei o vídeo inteiro sem pausa e continuei chorando quando fui ver o vídeo do charles cornell sobre as sutis maneiras que o tom jobim e chico buarque escondiam mensagens anti-ditadura na época da censura. em especial tive um pico de emoção com os trompetes estrondosos de construção, que agora me levam direto para a raiva e dor de morar na cidade mais bolsonarista do país enquanto o futuro presidiário deixava centenas de milhares de pessoas morrerem

depois disso vi o video dele sobre defying gravity e obviamente chorei com essa música também (ao mesmo tempo que fiquei impressionado com a composição genial.) infelizmente eu entendo a ariana grande

eu amo chorar. sinto que estou chorando agora o que não chorei por anos e anos da minha vida que perdi para o vazio pesado da depressão. eu acho que sou de fato uma pessoa muito sensível, que sente as coisas intensamente e se deixa levar pelas ondas de emoção da vida. mas já dizia daniel howell, antidepressivo não é uma cura, é uma boia para você não afogar enquanto aprende a nadar e flutuar sozinho. e agora eu me sinto muito mais em controle. quando eu quero que as ondas de emoção me devorem e dominem, eu deixo acontecer e aproveito o processo de ser humano e ter um coração mole; mas é uma escolha, pois eu sei bem nadar em águas turbulentas. os últimos dois anos e meio da minha vida tiveram os momentos mais horripilantes, traumáticos e assustadores da minha vida e eu ainda estou vivo e aberto e feliz. o antidepressivo me salvou, mas eu aprendi a navegar agora.

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