quinta-feira, 28 de maio de 2026

como o show de 10 anos do ultraluna me impactou

dia 2 de maio me encontrei em um estúdio na rua teodoro sampaio, indo ver o show comemorativo do cantor ultraluna.

"amanhã serei todos nós, com todos os nós"

ele trouxe letras confessionais reconhecíveis que associo com muita música emo pro mundo do cantor-compositor de MPB. as emoções ficam desenvernizadas, e as canções numa forma muito familiar para quem já compôs algo no violão em um momento de solitude inspirada.

as emoções são elaboradas mas nunca expandidas ao nível de preencher uma arena. são ~20 pessoas numa sala ouvindo melodias e arranjos cortantes e diretos.

"se um dia eu cantei que nunca acreditei,
prefiro não saber a me arrepender"

ouvir um oeuvre de 10 anos de músicas da maneira como elas provavelmente surgiram, o ultraluna sozinho e um violão, me fez pensar muito sobre o que é ser artista no brasil e no mundo atual. as composições dele me lembraram nando reis, me impactam da mesma maneira. a gente tem um nando reis contemporâneo? por que que temos a luisa sonza?

a opção para quem não tem interesse em ser um empreendedor de um pequeno negócio, ou uma engrenagem marketável numa gravadora megalomaníaca, tem uma escala muito pequena: ir compondo no seu quarto de maneira honesta, singela e genuína, e compartilhar de maneiras pequenas com poucas pessoas. e um show de 10 anos não precisa de uma explosão para mostrar essa trajetória: é muito evidente que é alguém que toca violão e canta faz um bom tempo, e que entende seus instrumentos com muita intimidade.

ir para um show pequeno me faz pensar que isso é ainda mais valioso. se o ponto da música é conectar pessoas com emoções e pensamentos, esses shows me mostram um caminho de fazer isso que nunca pensei possível. é extremamente gratificante ver um show sem os artifícios de perfeição e milagres performáticos que cresci idolatrando, afinal, sou gay e amo minhas divas e consumo k-pop ainda por cima.

minha experiência sendo músico independente é um eterno desequilíbrio. eu só tinha tempo se não trabalhava muito, mas só tinha dinheiro se trabalhava bastante. já recebi contato de gravadoras pedindo uns 3000 reais para produção e marketing de um single: na época eu ganhava em torno de 1900. então eu reduzo a escala, compro uma mesa de som da shopee, pirateio alguns softwares, aprendo a fazer as coisas sozinho e chamo de estética... no final, eu só quero me conectar com outras pessoas. eu controlo o som pra chegar até seu cérebro e seu coração, da maneira que não consigo só com palavras. acho que é o ponto de fazer arte, não?

agradeço ao ultraluna por ter organizado esse show, e espero chegar em mais músicos independentes para dizer que seu show de 20 pessoas importa mais do que você imagina. foi lindo relembrar da magia de ser humano e se conectar com um ao outro.

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